escrito/traduzido por : Monica Saha / Daniel Souza
As European Vegetarian Union (EVU) Talks (Encontros da União Vegetariana Europeia) deste ano decorreram entre 30 de Abril e 3 de Maio de 2009, pela primeira vez, na grande cidade de Zagreb, capital e maior cidade da Croácia. O evento foi organizado com a ajuda da Associação Animal Friends Croatia (AFC) (Amigos dos Animais da Croácia), que preparou o evento de forma excepcional durante os quatro dias assegurando o grande sucesso do evento. Os participantes vieram de toda a Europa incluindo Inglaterra, Irlanda do Norte, Alemanha, Suíça, Áustria, Itália e Eslovénia.
Na tarde de quinta-feira, foi dada a oportunidade de conhecer os organizadores da AFC no seu escritório, os quais prepararam deliciosas refeições locais para o jantar. Foi muito entusiasmante aprofundar o nosso conhecimento sobre a AFC, bem como as acções e campanhas nas quais a organização está envolvida, incluindo o seu próprio canal educativo no youtube: www.youtube.com/afcroatia.
O local onde decorreram as EVU Talks foi o Human Rights Centre (HRC) (Centro de Direitos Humanos) em Zagreb. Os organizadores da AFC prepararam aí o pequeno-almoço para os três dias, o qual continha uma óptima selecção de ‘carne’ vegetariana e fatias de ‘queijo’, tofu, patés, pão, molhos, cereais, leite de soja, infusões e sumos. Tivemos também um almoço buffet vegano no mesmo local na sexta e sábado. O catering foi feito no próprio local pelo restaurante local dos Hare Krishna e pelo catering da Vegehop.
O encontro de sexta-feira começou com uma introdução sobre o movimento vegetariano na Croácia, apresentado por Anita Euschen, que é a coordenadora da campanha internacional da AFC. Esta organização foi fundada em 2002 com o objectivo de promover os direitos animais, a protecção animal e o vegetarianismo. Actualmente, a organização conta com cerca de 3.400 membros em todo o mundo e cerca de 24.000 apoiantes, já organizou cerca de 250 campanhas, incluindo lobbying para alterar o regime fiscal e a legislação relacionada com o sofrimento e abuso dos animais.
A este encontro seguiu-se o workshop interactivo intitulado “Vamos comer o nosso caminho para um futuro sustentável”, do qual eu fui a moderadora. Neste workshop abordei diversos assuntos tais como o que é para nós o futuro sustentável, como é que o mesmo é influenciado pelas alterações climáticas, factos sobre o ambiente, desastres provenientes da indústria pecuária e por aí em diante. Fiz com que os participantes tivessem em consideração as percepções populares sobre as causas das alterações climáticas, convicções que as pessoas têm sobre o ambiente, razões ambientais para as pessoas se tornarem vegetarianas/veganas e o que cada um pode fazer individualmente ou em grupo. Houve inúmeras sugestões durante os exercícios de grupo e também debates que focaram assuntos como o vídeo da PETA, Meat is not green (A carne não é verde) e um vegano a conduzir um SUV vs uma pessoa que se alimenta com carne, numa controvérsia com a utilização da bicicleta. No final do workshop distribuí um questionário sobre a carne e as alterações climáticas no intuito de proporcionar alguma descontracção face a um assunto tão sério.
Durante a tarde, o presidente da EVU, Renato Pichler, apresentou uma panorâmica sobre o tópico da sustentabilidade, seguida de um debate em grupo. Neste debate, falou-se sobre o que podemos fazer no sentido de distribuir factos. Sugeriu-se que mostrar exemplos aos políticos e apresentar factos, aos comités de especialistas que dão conselhos ao governo sobre a forma de estes orientarem as suas acções. Por exemplo, mostrar que um número suficiente de pessoas está interessada numa alimentação vegetariana, uma vez que os políticos estarão mais interessados em ouvir o que a maioria do público quer.
Na palestra final do dia, Francesco Maurelli, vice presidente da Tutmonda Esperantista Vegetarana Asocio (TEVA) (Associação Esperantista Vegetariana Universal), fez uma apresentação sobre “Sustentabilidade Ambiental: uma fotografia de Itália”. Na sua palestra, Francesco, abordou a situação presente sobre a sustentabilidade ambiental na Itália no que diz respeito à dieta, transporte e energia. Um dos aspectos mais chocante e, ao mesmo tempo, divertido que Francesco mencionou foi que o ministro-adjunto do ambiente italiano, Francesco Lucara, disse que existem “provas substanciais que o aumento de CO2 é um benefício para o ambiente”, “o problema é a Natureza” e “os gelos estão a derreter devido aos alpinistas”, durante uma entrevista, no programa de televisão Le Iene. Contudo esta não é a atitude pela qual todos estão a enveredar. O anterior Ministro da saúde italiano, Umberto Veronesi afirmou que “150 milhões de toneladas de cereais são utilizadas para alimento dos animais que ingerimos, ao invés de alimentar pessoas” e que “todos os anos uma parte da floresta da Amazónia, do tamanho da Áustria, é destruída para dar lugar a animais.
Após este debate, houve um passeio em Zagreb conduzido por um voluntário da AFC. O jantar decorreu no Feng Shui Centre. Este espaço está localizado na magnífica zona rural dos arredores de Zagreb, alberga um clube Vegetariano e promove vários workshops, diversas aulas de desenvolvimento pessoal e tratamentos de saúde. Os aperitivos e os pratos no menu macrobiótico foram verdadeiramente soberbos e fazem-nos sentir purificados e em harmonia.
Na manhã de Sábado, Sebastian Zosch da VEBU (União Vegetariana Alemã) deu um workshop sobre como “Melhorar a cooperação e aprender com os melhores. O que podemos aprender com as sociedades vegetarianas com maior sucesso na Europa?” Neste workshop foi enfatizado que é bom ter diferentes tipos de organizações, tanto corporativas como organizações criadas de raíz. O sexo foi uma campanha que surgiu u que, com certeza atraiu a atenção do público, e.g. Rude Food, o qual é um vídeo da The Vegetarian Society UK (Sociedade Vegetariana do Reino Unido). Este workshop acabou por se tornar ainda mais interessante quando surgiu um debate sobre a igualdade e desacordo entre os diferentes grupos religiosos no que respeita ao conceito de vegetarianismo i.e o ovo não é considerado um alimento vegetariano na comunidade Indiana. Como vegana britânica de Bengali, tenho de concordar que ao existir uma definição padrão sobre o o conceito de vegetarianismo é também necessário ter em conta as considerações sobre o que é aceitável em determinadas etnias e não rejeitar certas visões apenas por serem adoptadas por minorias.
Após o workshop, Francesco Maurelli, falou acerca do Simpósio Vegetariano Polaco-Esperanto, que é um evento internacional que vai decorrer em Bialystok, Polónia a 25 de Julho de 2009. Nesta palestra, Francesco sublinhou que a ligação entre o vegetarianismo e o Esperanto, é o estilo de vida, direitos e irmandade. Estima-se que três milhões de pessoas no mundo falem Esperanto e que o objectivo deste idioma é quebrar barreiras linguísticas e ter um simples e neutro idioma. O simpósio é para todos os interessados e constitui uma grande oportunidade de conhecer as associações vegetarianas locais bem como as de direitos animais, aprender mais sobre o que está a acontecer e proporcionar suporte a um movimento em crescimento numa área desfavorecida da Europa.
Após o almoço de Sábado, visitámos o primeiro Santuário de Lavoura na localidade de Kostanj. Neste local existem muitos animais que foram salvos tais como vacas, touros, porcos, gansos e coelhos. Eu fiquei particularmente comovida com um porco que só tinha um olho e não conseguia andar correctamente nas suas patas dianteiras derivado de um defeito de nascença. A dona do Santuário disse que planeia salvar mais animais no futuro. É realmente admirável e inspirador ver que ela e o marido são tão dedicados à ajuda e cuidado dos animais. No caminho de regresso à cidade, no comboio, foi exibido o vídeo Truth or Diary (Verdade ou Diário) apresentado pelo poeta vegano Benjamin Zephanian.
Após a visita ao santuário, tivemos o EVU Anual General Meeting (AGM) (Reunião Geral Anual) nos escritórios da AFC. No final da AGM foi sugerido que o próximo EVU AGM bem como as EVU Talks decorram na Suíça, uma vez que um hotel vegano de quatro estrelas irá ser inaugurado no próximo ano junto ao Lago Constança.
Nessa mesma noite fomos ao Centro Informativo Cultural para um evento de abertura organizado pela AFC. Este evento incluiu uma apresentação da EVU dada por Hildegund Scholvien e o projecto internacional V-Label por Renato Pichler. Houve também uma pequena palestra sobre as vantagens de uma alimentação vegana e vegetariana, acompanhada por snacks veganos. O grande destaque da noite foi para a exibição do filme Meat the Truth (A Verdade da Carne). Este filme é um documentário apresentado por Marianne Thieme (líder do Partido pelos Animais da Holanda), que mostra uma das causas mais importantes para as alterações climáticas que é repetidamente ignorada em filmes como A Verdade Inconveniente de Al Gore. Meat the Truth é uma verdade inconveniente para alguns, incluindo Al Gore, uma vez que destaca os inúmeros danos causados ao ambiente pela pecuária intensiva. O filme é uma verdadeira revelação para o público em geral e é algo que todos aqueles que se preocupam com o ambiente, animais e a sua saúde deveriam ver.
Na manhã de domingo antes de deixar a Croácia despedimo-nos uns dos outros, após o pequeno-almoço no HRC. Foram distribuídos CD’s com fotos das EVU Talks que a AFC gentilmente produziu bem como DVD’s de todos os vídeos exibidos durante o evento. Foi um evento fantástico e foi muito agradável estar com pessoas de variados países que sem relutância lutam pela causa. Esperamos ver muitas mais pessoas nas EVU Talks no próximo ano.